É o Mundo em Branco e Preto ou ele vem em 50 Tons de Cinza?

C. P. Snow, autor de um famoso livrinho chamado As Duas Culturas, publicado inicialmente em 1956, disse, quase no início do livro: “Tentativas de dividir qualquer coisa em dois grupos devem ser consideradas com a maior suspeita”. Isso, dito em um livro que se chama As Duas Culturas, é digno de nota.

Mas a tese parece plausível, inicialmente. Dividir os brasileiros, por exemplo, entre “nós” e “eles” — independentemente de quem somos nós e quem são eles — parece deixar de fora gente que não quer ser nem nós nem eles, e que talvez seja contra nós e eles… Dividir as pessoas que têm opiniões políticas entre “esquerda” e “direita” também parece fazer algo parecido: deixa de fora gente que não se considera nem de esquerda nem de direita, por se ver como de “centro”… O Novo Testamento afirma que quem não é por nós, é contra nós — deixando de fora os indiferentes, que não são nem por nós nem contra nós, por achar que há outras alternativas…

Por outro lado, Ayn Rand, autora que eu sempre admirei, era uma dessas pessoas que enxergava o mundo em branco e preto, sem tons de cinza no meio. Ou você é do bem ou é do mal, ou é radicalmente a favor da liberdade ou é um autoritário (e totalitário) — confesso ou enrustido. Para ela, ou você é do primeiro sexo (que é o masculino — ela era machista) ou do segundo (o sexo ao qual Simone de Beauvoir dedica mais atenção, por pertencer a ele). Para ela, nada de bissexo, ou de terceiro sexo, ou de assexo, ou de transexo. Nada de 50 tons de cinza. Muito menos os mais de dezesseis milhões de tonalidades entre banco puro e preto puro que o pessoal de informática entende muito bem (por que é 2 elevado a 16). Ou você é casado ou não é — nada de “mais ou menos”, ou de “tico-tico no fubá”, como dizia o Sílvio Santos.

Para Ayn Rand (voltando a ela e deixando a de Beauvoir quietinha no seu canto), se alguém lhe faz uma pergunta, como, por exemplo, você é a favor da pena de morte, a resposta é ou sim ou não — não se admitem respostas que comecem com “Bem…”

Você concorda com a tese de que a tentativa de dividir qualquer coisa em dois grupos é uma atividade sempre suspeita? Sim ou Não? Não vale dizer “Bem…”

Confesso que, talvez por influência de Ayn Rand, mas acho que principalmente pela influência de Aristóteles (que influenciou enormemente Ayn Rand), tenho uma tendência a ser binário.

Em sua classificação dos seres (qualquer coisa que existe é um ser), Aristóteles foi totalmente binário. Os seres se dividem em animados e inanimados; os animados se dividem em dois; os inanimados, idem.

A teologia calvinista também é binária… As pessoas se dividem em eleitas e não-eleitas… elas vão para o céu ou vão para o inferno… nada de limbo ou purgatório, nem mesmo com estágio intermediário temporário.

Na lógica e na epistemologia, qualquer enunciado é verdadeiro ou falso — tertium non datur… Na ética e na filosofia política, qualquer conduta ou fora de organizar a vida em sociedade é boa / certa ou má / errada — tertium non datur… Mas quando chego à estética, reluto em dizer que qualquer pessoa é bonita ou feia. Sempre há as(os) bonitinhas(os), que não são nem uma coisa, nem outra, mas insistem em ignorar a a binaridade da vida. No Facebook essa binaridade é ignorada: qualquer foto de pessoa postada é sempre “linda!!!” (assim, com três pontos de exclamação).

Acho que devemos dedicar um pouco de reflexão a essa questão: na vida, usando as cores em sentido metafórico, é tudo branco ou preto, ou existem tons de cinza? Se você não se sente bem em um mundo binário, qual é a alternativa: um mundo plural em que tudo se divide em um monte de categorias? Em que há homens, mulheres, assexuados, bissexuais, multissexuais, plurissexuais, transsexuais?

Sexo só há dois, não é verdade? Masculino e Feminino, Macho e Fêmea (no caso dos animais), Homem e Mulher (no caso da raça humana). Hermafroditas existem, mas são admitidamente uma anomalia. Ninguém escolhe ser hermafrodita: ou se nasce assim ou não se nasce assim… Quem sabe, no futuro, com o progresso da ciência (bendita ciência, não?), será possível para um homem ou uma mulher acrescentar os órgãos sexuais do outro, tornando-se hermafrodita por escolha. Mas até lá…

Até nossa amiga Simone de Beauvoir deu ao livro dela o título de Le Deuxième Sexe, n’est-ce pas? Ela não o intitulou de “Os Outros Sexos”, ou “Nossas Alternativas Sexuais”. Quando ela procurava meninas para atender aos desejos de seu companheiro Sartre, eram claramente meninas que ela buscava — não meninos… Às vezes os rolos eram do tipo ménage, mas, por mais avançada que fosse, ela não se sentia bem vendo seu companheiro transando com suas alunas (suas dela e suas dele)…

Acho que o pessoal que inventou a questão do gênero aplicável a pessoas teve de recorrer à categoria “gênero” porque ficava meio complicado dizer que havia vários sexos, não é? A gente pode escolher de que jeito vai viver (gênero), mas não escolhe o próprio sexo. Sexo é biologia, sexo é destino — mesmo que hoje seja possível amputar um pênis, ou implantar uma prótese peniana, ou construir uma vagina, ou, então, costurar a que se tem. . . Mas nada disso elimina o fato de que, durante a gravidez, quando se faz um ultrassom, o que se procura é evidência de um pintinho ou de uma xoxotinha…

É isso… Ficar sozinho no sítio durante um fim de semana prolongado, sem muito o que fazer porque desde ontem à noite não há eletricidade, dá nisso.

Em Salto, 1 de Novembro de 2015. Dia de Todos os Santos. O santo do meu dia é a Independência do Brasil. Nasci em 7 de Setembro…

Você só tem duas opções: Curta, ou não… 🙂

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