Transcendentalia: Verum, Bonum, et Pulchrum

Segundo consta – e consta em inúmeros lugares – vivemos hoje não mais na Era Moderna, mas, sim, na era Pós-Moderna. Em todo lugar se fala em Pós-Modernismo. Teríamos, supostamente, deixados para trás os pressupostos da Era Moderna, em especial seu Racionalismo, para viver algo cujo contorno é ainda meio fluido, mas que envolve, aparentemente, a Pós-Verdade, a Pós-Moralidade, e a Pós-Beleza.

O caos em que vivemos hoje seria decorrente de nossa dificuldade de conviver com um mundo pós-moderno em que a verdade, o bem moral e a beleza não são mais o que costumavam ser – na realidade, não existem mais. Assim vai a narrativa – termo surgido ou ressurgido no seio do Pós-Modernismo.

Quero defender aqui uma tese diversa. O que chamamos de Modernismo, ou a Era Moderna, e o que parece ser o Pós-Modernismo, ou a Era Pós-Moderna, têm muito em mais comum do que em confronto. E ambos se opõem ao Classicismo, ou a Era Clássica, que, de certo modo, envolve a Era Antiga, propriamente dita, e a Era Medieval.

Afinal de contas, foi na Era Antiga que foi levantada a bandeira dos três transcendentalia: verum, bonum et pulchrum – o verdadeiro, o bom e o belo, como entidades transcendentais, mas objetivas e constitutivas da nossa realidade. A Era Medieval adotou essa visão de mundo. Foi só nos primórdios da Era Moderna que essas entidades passaram a ser questionadas e que essa visão de mudo passou a ser questionada – questionamento que chegou em seu auge no Pós-Modernismo

Ou vejamos.

Para entender a Era Moderna é necessário entender a Era Medieval e Era Antiga – o que vou chamar aqui de Pré-Modernidade (para poder contrastar com a Pós-Modernidade).

Embora haja consideráveis diferenças entre a Visão de Mundo Antiga e a Visão de Mundo Medieval, e mesmo entre as diversas correntes que constituíram uma e outra, é possível detectar uma certa tendência básica naquilo que poderíamos chamar de “Visão de Mundo Pré-moderna”, e que engloba elementos básicos de uma e de outra.

Para a Visão de Mundo Pré-Moderna, em primeiro lugar, a existência daquilo que na Visão de Mundo Moderna se convencionou chamar de “mundo exterior” (a realidade externa à nossa mente) não é um problema. Para ela, é pacífico que existe um mundo fora de nossa mente, que é objeto de nosso conhecimento. Isso não precisava ser demonstrado, porque não havia se tornado um problema.

Para a Visão de Mundo Pré-Moderna, em segundo lugar, a realidade contém objetos e fatos. Objetos são coisas e fatos são estados de coisas. Tanto objetos como estados de coisas existem, na realidade: eles são descobertos, não constituídos. Isso também não precisava ser demonstrado, porque não havia se tornado um problema.

Além disso, e em terceiro lugar, para a Visão de Mundo Pré-Moderna o mundo exterior é objetivamente ordenado. A realidade não é composta meramente de objetos e fatos isolados uns dos outros. Objetos e fatos se vinculam uns aos outros, através de várias relações, dentre as quais a principal é a de causalidade.

A relação de causalidade, para a Visão de Mundo Pré-Moderna, existe objetivamente na realidade: um evento realmente causa o outro, e isto é um fato que pode ser constatado pela experiência mas que também é necessário. A realidade não é composta apenas por “fatos atômicos” — evento a e evento b, por exemplo — mas também por fatos complexos — evento a causando evento b, por exemplo. A relação de causalidade, portanto, não é redutível à relação de contiguidade espaço-temporal, como diria Hume, já no período moderno (século XVIII).  Ela comporta também o nexo causal.

Isto significa que o mundo possui ordem, e que essa ordem existe independentemente do ser humano. Não é o ser humano que impõe ordem à realidade: esta já é ordenada, cumprindo ao ser humano apenas descobrir a ordem que já existe. É esse fato que possibilita o conhecimento.

A realidade, para a Visão de Mundo Pré-Moderna, portanto, contém fatos, atômicos e complexos. Esses fatos, como visto, são estados de coisas que existem, na realidade: são descobertos, não constituídos. Conquanto possam existir estados de coisas imaginários, fictícios, eles não devem ser descritos como “fatos imaginários”. Fatos são coisas reais.

Para a Visão de Mundo Pré-Moderna, em quarto lugar, a verdade é uma relação de correspondência ou adequação entre os juízos de um sujeito e os fatos que são objeto desses juízos. Se o juízo emitido por um sujeito corresponde aos fatos, é verdadeiro; se não existe essa correspondência entre o juízo emitido e a realidade, ele é falso. A realidade não é nem verdadeira nem falsa: ela simplesmente é. São nossos juízos acerca da realidade que podem ser verdadeiros ou falsos.

Para a Visão de Mundo Pré-Moderna, em quinto lugar, temos evidência da verdade ou não de nossos juízos através principalmente dos sentidos, pela percepção sensorial. E aquilo que nos é dado na percepção é nada mais, nada menos do que a realidade, propriamente dita, os objetos e os fatos que compõem o mundo externo a nós. Embora seja notório que às vezes nos enganemos em nossa percepção, a essa constatação não se dá importância muito grande na Visão de Mundo Pré-Moderna.

Para a Visão de Mundo Pré-Moderna, em sexto lugar, é possível, partindo dos sentidos, descobrir fatos sobre a realidade que transcende os sentidos: a chamada realidade supra-sensível (ou o que comumente se chama de “sobrenatural”). Em geral, acreditava-se que era possível descobrir fatos acerca de Deus (por exemplo) pela chamada “via natural”, ou seja, apenas refletindo sobre os fatos descobertos pelos sentidos.

Para a Visão de Mundo Pré-Moderna, em sétimo lugar, o conhecimento é o conjunto de juízos verdadeiros e evidenciados nos fatos que compõem a realidade (sensível ou supra-sensível). Para que haja conhecimento é necessário que haja um sujeito, que conhece, e um objeto, que é conhecido.

A Visão de Mundo Pré-Moderna não duvida de que tenhamos conhecimento da realidade: ela é plenamente confiante no conhecimento humano. Na verdade a confiança é tanta que ela pode falar, sem embaraço, em milagres. Na Visão de Mundo Pré-Moderna não há maiores problemas no conceito de milagre. Um milagre é um evento que, se ocorrer, viola ou suspende a ordem objetiva existente na realidade. Para a Visão de Mundo Pré-Moderna, milagres, se de fato existem, acontecem no nível da realidade, e não apenas no nível de nosso conhecimento da realidade. Sua definição envolve referência ao plano ontológico e metafísico, não apenas epistemológico. Milagre não é apenas um nome para nossa ignorância da ordem (como diria Spinoza mais tarde): o milagre é uma violação ou suspensão da ordem objetiva existente na realidade. Por isso é que se acreditava que eles eram de sua importância: se de fato existem, eles provam alguma coisa. Falar em milagres, porém, não quer dizer acreditar neles. Se realmente acontecem ou não é outra questão. Nem todos os pensadores pré-modernos acreditavam que milagres aconteciam. Mas não tinham dificuldade alguma com o conceito.

Para a Visão de Mundo Pré-Moderna, por fim, e em oitavo lugar, a pedagogia é o processo através do qual a criança é levada a conhecer e a descobrir fatos, é o processo de condução do sujeito ao objeto.

A Visão de Mundo Moderna, iniciada por Descartes, e que encontrou seu ponto culminante em Kant e Hegel, passando pelos Racionalistas Continentais (Leibniz e Spinoza) e pelos Empiristas Britânicos (Locke, Berkeley e Hume), infelizmente veio a questionar todos esses oito pontos – e esse questionamento não redundou em progresso, mas, sim, em regressão.

A filosofia era vista, na Visão de Mundo Pré-Moderna, como a mais perfeita expressão da racionalidade humana.

Na Visão de Mundo Moderna, entretanto, a razão é frequentemente utilizada para combater a razão. Dentro da filosofia moderna existe uma corrente irracionalista tão forte que, encontrou no século XX um terreno fértil para a sua propagação. É a razão que perdeu o rumo, e que tenta agora demonstrar sua própria fragilidade.

As principais armas do Irracionalismo Moderno são o Ceticismo e o Relativismo.

O Ceticismo é, fundamentalmente, a tese de que a verdade, e, por conseguinte, o conhecimento, não existem. Só existem pontos de vista, opiniões, crenças, coisas desse tipo. Mas nada disso é verdade, nada disso merece o título de conhecimento. Os pontos de vista que adotamos (se é que adotamos algum) são tão inválidos quanto quaisquer outros.

O Relativismo é, fundamentalmente, a tese de que a verdade e o conhecimento existem, mas cada época, cada cultura, ou mesmo cada indivíduo, tem a sua verdade e o seu conhecimento. O Relativismo, no fundo, afirma que tudo pode ser verdade, dependendo do contexto. Quaisquer outros pontos de vista, além do nosso, são tão válidos quanto os que adotamos. Um ponto de vista não passa da vista (a partir) de um ponto.

Note-se que tanto o Ceticismo como o Relativismo apelam para sentimentos nobres.

O Ceticismo tem sido o principal crítico do Dogmatismo e do Fanatismo. Como a verdade e o conhecimento não existem, não devemos nos apegar aos nossos pontos de vista (caso os tenhamos): devemos reconhecer a falibilidade de nossas faculdades de conhecimento, e, portanto, evitar qualquer Dogmatismo e Fanatismo.

Da mesma forma, o Ceticismo tem sido o maior defensor da Tolerância. Devemos tolerar os pontos de vista dos outros, mesmo os que nos parecem os mais estapafúrdios, porque, embora careçam de fundamento, não estão em pior situação do que nossos próprios pontos de vista.

Igualmente, o Ceticismo tem sido um proponente da Modéstia, da Humildade, da Ausência de Soberba, da Ausência de Arrogância: tudo o que sei, dizem Sócrates e o cético, é que nada sei.

Os céticos são simpáticos: haja vista Hume, talvez o filósofo mais simpático que já pôs os pés sobre a Terra. Revestindo-se desse caráter nobre, o Ceticismo conquista as pessoas — e espalha o Irracionalismo.

O Relativismo também é uma filosofia simpática.

O Relativismo procura convencer as pessoas de que os pontos de vista de outras pessoas (ou as de outras épocas, ou de outras culturas) são tão válidos quanto os nossos próprios (ou quanto os pontos de vista de nossa própria época, ou de nossa própria cultura).

Isso é assim, afirma o Relativismo, porque as ideias são geradas em determinados contextos, e adquirem validade somente a partir daquele contexto. É inválido, portanto, criticar um ponto de vista a partir de um contexto que não é o seu próprio.

Assim sendo, não é válido (por exemplo) criticar o budismo a partir do catolicismo romano, ou, na verdade, criticar qualquer religião, a partir de uma outra, ou mesmo a partir de um ponto de vista ateu. Todas religiões são boas, e até o ateísmo é uma forma de religião, às avessas, igualmente válida.

Por isso, também o Relativismo propõe a rejeição do Dogmatismo e do Fanatismo e a adoção de uma postura de Tolerância. A arrogância, o sentimento de superioridade de nossos pontos de vista, a falta de empatia para com pontos de vista diferentes, tudo isso é pecado mortal para o Relativismo.

Os relativistas também são, em regra, simpáticos. Muitos deles se embrenham por florestas quase virgens para estudar pontos de vista e costumes que os demais mortais poderiam considerar primitivos. Para o relativista, não há superior e inferior, quanto se trata de ideias, de pontos de vista, de cultura, enfim.

Revestindo-se desse caráter nobre, o Relativismo também conquista as pessoas — e espalha o Irracionalismo.

Na verdade, a maior parte das pessoas adota, hoje, um misto de Ceticismo e Relativismo, sem distinguir bem entre eles.

É por isso que o Irracionalismo é hoje moda. Se a verdade e o conhecimento não existem, ou se tudo é verdade e conhecimento, então não há como ser racional. Por que adotar este — e não aquele — ponto de vista? Por que pronunciar este — e não aquele — ponto de vista? Por que preferir esta – e não aquela – linha de conduta? Por que preferir esta — e não aquela — obra de arte?

A Visão de Mundo Pré-Moderna (Antiga e Medieval) sabia como resolver essas questões. A Visão de Mundo Moderna desaprendeu de fazer isso.

Ser racionalista é, hoje, ser alvo de críticas, mesmo de ridículo.

A nossa é uma época em que se tornou lugar comum afirmar que a verdade é relativa; em que amplamente se acredita que, se duas pessoas discordam, isso significa apenas que a verdade de uma é diferente da verdade da outra; em que cientistas defendem a tese de que as teorias científicas nada mais são do que “paradigmas” semelhantes a dogmas religiosos (em relação aos quais já é costume dizer que todos são bons, desde que adotados com sinceridade); em que teorias e filosofias políticas são vistas como nada mais do que ideologias em conflito, reflexos superestruturais de infraestruturas econômicas alternativas, acerca das quais não cabe levantar a questão da verdade; em que a moralidade se tornou uma questão de gosto, levando até um homem da estatura moral de Bertrand Russell a afirmar que sua discordância básica com Hitler se reduzia ao fato de que ele não gostava do que Hitler fazia; em que as linhas demarcatórias entre a arte, de um lado, e, de outro, borrões, ferro velho, lixo e outras excrescências desapareceram, porque as pessoas têm medo de emitir um julgamento estético; em que interpretações de um texto, por mais intuitivas e estapafúrdias que sejam, são acolhidas com a mesma seriedade que as decorrentes de trabalho sério e rigoroso; em que auto-expressão se tornou sinônimo de criatividade; em que os contra-sugestionáveis são tidos como espíritos críticos; em que a noção de verdade, por fim, se admitida, é vista apenas em termos da coerência de um conjunto de enunciados, e não de sua correspondência com a realidade.

As chamadas “Leis da Lógica” – andar dos mais importantes do edifício filosófico da Antiguidade Grega — são hoje desprezadas. Essas leis são as seguintes:

  • Toda afirmação (inclusive teorias científicas, juízos morais e juízos estéticos), ou é verdadeira ou falsa (Lei do Terceiro Excluído);
  • Nenhuma afirmação, devidamente qualificada, é verdadeira num contexto (temporal, espacial, social, cultural, econômico) e falsa em outro (Lei da Não-Contradição);
  • O que é verdadeiro, é sempre verdadeiro; o que é falso, sempre falso (Lei da Identidade).

Também são desprezadas hoje teses metafísicas e epistemológicas fundamentais da Visão de Mundo Pré-Moderna, como, por exemplo:

  • A primazia da realidade sobre os conceitos. A realidade existe independentemente de nossa percepção e de qualquer conceito que possamos formar sobre ela. Através dos sentidos, o ser humano apreende a realidade, não a constrói (Realismo Metafísico);
  • A primazia dos conceitos sobre as palavras. É o pensamento que condiciona a linguagem, não vice-versa (Realismo Epistemológico).
  • A ciência é objetiva e racional (contra os proponentes da sociologia do conhecimento e da ciência);
  • Existe conhecimento ético: julgamentos morais são verdadeiros ou falsos, e não são meramente emoções e sentimentos disfarçados de conhecimento (contra emotivismo ético, etc.);
  • Existe objetividade na arte (contra expressionismo, etc.).

Na Visão de Mundo Pré-Moderna havia uma atitude de abertura para com a busca da verdade e uma convicção básica de que a racionalidade é a melhor arma nessa busca. Tanto essa atitude como essa convicção foram perdidas na Visão de Mundo Moderna.

A Visão de Mundo Pós-Moderna não passa da Visão de Mundo Moderna levada às últimas consequências: aquela é filha desta.

Para nos livrarmos da Visão de Mundo Pós-Moderna precisamos recorrer à Visão de Mundo Pré-Moderna, e voltar a acreditar que a Verdade (Verum), o Bem Moral (Bonum) e a Beleza Estética (Pulchrum) de fato existem.

A maior contribuição que a educação atual pode dar ao nosso mundo é recuperar algumas tendências da educação e da Visão de Mundo Pré-Moderna.

Em Campinas, Agosto de 2008; Revisado em São Paulo, Março de 2013; Revisado em Salto, Agosto de 2015; Revisado em Ubatuba, Março de 2017

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