Conflitos

Desde as eleições presidenciais de 2002, em que o PT chegou ao poder através de Lula, tenho me interessado, por razão muito pessoal, pela questão das raízes do que chamo de conflito de pontos de vista básicos — conflito daquilo que os de fala inglesa chamam de “visions” ou “worldviews” ou mesmo “mindsets”, e os alemães de “Weltanschauung”.

A razão pessoal está no fato de que entrei em conflito, acerca do PT e de Lula, com amigos meus que, até a hora em que discordei frontalmente deles, eu reputava inteligentes, mas que, depois dos conflitos e das discussões, comecei a sinceramente duvidar que fossem realmente inteligentes. As discussões ficaram tão frequentes e tão feias que começaram a me fazer mal. Ficou difícil, para mim, entender que alguém que eu reputava inteligente e amigo pudesse ver o mundo de forma tão diferente de mim, pudesse ver nas ideias, para mim, totalmente ultrapassadas e perniciosas do ideário do PT uma solução para os problemas do Brasil e uma fonte de esperança para os brasileiros, e pudesse ver na pessoa, para mim, nojenta, baixa e imoral do Lula (inicialmente não se sabia que também era corrupto, desonesto, ladrão e mentiroso) o maior líder popular que o Brasil já teve e algo próximo de um estadista. Passei a ter vergonha de ser brasileiro, de ser governado por um apedeuta metido – e acabei bloqueando alguns amigos que tinha e com os quais não conseguia mais interagir civil e produtivamente sobre esses assuntos. Com outros cheguei perto de bloquear, mas os laços afetivos foram mais profundos e eu não o fiz, mas desliguei a notificação de seus posts para não precisar mais ler o que escreviam e que, para mim, não fazia o menor sentido.

Simultaneamente, comecei a ler os livros abaixo, que, pouco a pouco, fui comprando. O terceiro eu já havia lido em 1989, mas em outro contexto.

Minha conclusão preliminar é que todos desenvolvemos, em função das características pessoais que temos, das pessoas com que interagimos, dos livros que lemos, dos filmes que vemos, dos ambientes em que vivemos, das vivências que temos nesses ambientes, um determinado “sentido (senso) da vida”, uma determinada forma de ver o mundo e as pessoas da qual muitas vezes não estamos totalmente conscientes… Ou achamos que as pessoas são basicamente boas, honestas, sinceras, confiáveis, “dependable”, ou achamos que todo mundo é basicamente um aproveitador, desonesto, mentiroso, não merecedor de confiança ou crédito, etc. Uma mulher pode achar que todo homem é malandro, incapaz de fidelidade no relacionamento, pouco transparente quanto à sua vida pessoal, etc. ou achar exatamente o oposto. E assim vai. Não é só a respeito de relacionamentos pessoais que a gente tem esse “sentido (senso) da vida”. Isso se dá em relação a achar que se tem sorte ou azar na vida, a confiar que as coisas em geral vão dar certo ou errado, a achar que nossa vida é regida por um destino ou não, etc. Não temos muito controle sobre isso. Mas temos dificuldade em nos relacionar com pessoas cujo “sentido (senso) da vida” é totalmente diferente do nosso. Ficamos (como se fosse) em faixas de onda diferentes. Parece que falamos línguas diferentes, embora estejamos, linguisticamente, falando a mesma língua. Às vezes podemos nos dar bem com alguém, desde que não discutamos (digamos) religião, política, ou futebol…

Sugiro que os que estiverem interessados no assunto leiam esses três livros que tenho lido. São os seguintes:

Jonathan Haidt. The Righteous Mind: Why Good People Are Divided by Politics and Religion. (New York: Pantheon Books, 2012).

Paul G. Hiebert. Transforming Worldviews: An Anthropological Understanding of How People Change. (Grand Rapids: Baker Academic, 2008).

Thomas Sowell. A Conflict of Visions: Ideological Origins of Political Conflicts. (New York: Basic Books, 1st ed. 1987, 2nd ed. 2006).

Se alguém tiver indicação de outros títulos, fico grato.

Em Salto, 19 de Março de 2016. Amanhã começa o Outono.

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