A Divinização do Mal e a Demonização do Bem – 2

1. Introdução

No artigo anterior falei em tese e de modo genérico sobre a questão. Neste vou tratar de um caso específico discutido no livro The Marketing of Evil: o da homossexualidade. Mas não me limitarei ao uso desse livro. Farei referência a outros.

A transformação da homossexualidade de vício em virtude (categorias morais) e de crime em direito (categorias legais) atravessou três fases de todos conhecidas e, no momento, o movimento gay e seus companheiros de viagem tentam introduzir uma quarta fase. A seguir apresento resumidamente essas três fases em grande medida já atravessadas (e em grande parte vencidas) pelo estabelecimento homossexual e discuto sumariamente o que me parece ser a buscada quarta fase.

A. Primeira Fase

Nesta primeira fase, o protagonismo é dos heterossexuais: são eles que ditam a pauta. E eles veem a homossexualidade como algo moralmente errado. Ponto final. Os heterossexuais não religiosos veem o relacionamento sexual entre pessoas do mesmo sexo como algo não-natural, desviante, anormal mesmo, enquanto os religiosos o veem como algo pecaminoso, e, no caso dos cristãos, como um pecado explícita e severamente condenado na Bíblia.

Para ser considerada como moralmente errada, pecaminosa, etc. a homossexualidade precisa ser vista como algo que é objeto de ESCOLHA – uma escolha em regra considerada errada e odienta pelos não homossexuais.  Dentro dessa visão, os homossexuais poderiam muito bem escolher (como os demais) a heterossexualidade, mas optam por não faze-lo em decorrência de algum tipo de torpeza moral: devem, portanto, ser punidos por sua imoralidade.

A consequência desse ponto de vista é que os homossexuais são frequentemente discriminados, perseguidos, agredidos, até mesmo assassinados, e, em alguns contextos, oficialmente presos e condenados à morte em países ou estados que consideram a homossexualidade um crime, além de uma ofensa moral (e ainda os há).

Esta é a fase que poderia ser descrita como A FASE DO ÓDIO E DA INTOLERÂNCIA AO GAY. Ela prevaleceu no Ocidente até por volta do segundo quarto do Século 20. Em outros locais, como em países comunistas (basta lembrar Cuba) e em países muçulmanos, ela continuou até bem mais recentemente, não estando de todo ultrapassada até hoje.

B. Segunda Fase

Esta fase é introduzida de certo modo pelo aparecimento da AIDS, conhecida por muitos como “a peste gay”. Embora alguns heterossexuais religiosos tenham visto a AIDS como castigo divino aos gays pelo que lhes parecia ser a escolha odienta da homossexualidade, outros heterossexuais, religiosos ou não, começaram a mudar a sua forma de ver a homossexualidade, passando a vê-la mais como DESTINO do que como escolha. Na realidade, os próprios homossexuais começaram a enfatizar que nasceram gays, não escolhendo esse estilo de vida. Cientistas começaram até mesmo a especular se haveria um gene gay, isto é, um gene responsável pela orientação sexual.

Em decorrência disso, e em especial com o aparecimento da AIDS, o ódio aos gays foi gradualmente cedendo lugar à uma certa pena e à solidariedade (como se ninguém merecesse esse tipo de destino), e os próprios homossexuais começaram a se ver, conscientemente ou não, mais como “vítimas” do destino, ou como objetos de acontecimentos que não dependeram de sua escolha (a palavra “vítima” antigamente era complicada) do que como objetos de ódio. Esta é a fase que poderia ser descrita como A FASE DA SOLIDARIEDADE E DA TOLERÂNCIA AO GAY. O protagonismo aqui é, em grande medida, dos heterossexuais: são eles que definem a pauta.

É verdade que alguns heterossexuais limitaram a sua solidariedade e tolerância à não perseguição e discriminação dos gays – sem deixar de considerar a orientação homossexual um erro moral dos próprios gays ou, se fosse determinada por fatores genéticos, um desvio da normalidade – um erro da natureza.

Essa fase prevalece ainda hoje, embora em alguns círculos já tenha sido sucedida pela terceira fase.

C. Terceira Fase

Na terceira fase o protagonismo passa para os próprios gays, que resolveram a definir, de forma abrangente, quase total, a própria pauta – e o fazem de forma radical e por vezes até desnecessariamente agressiva. Poderíamos chamar esta fase de A FASE DO ORGULHO E DO ATIVISMO GAY.

Esta fase tem raízes bem delimitadas no tempo: a publicação do livro After the Ball: How America Will Conquer its Fear and Hatred of Gays, escrito por Marshall Kirk e Hunter Madsen (Doubleday. New York, 1989). Os autores eram “da pesada”. Kirk, um graduado de Harvard, era, além de poeta e lógico nas horas vagas, um especialista em neuropsiquiatria, que trabalhava num centro da Universidade Johns Hopkins destinado a estudar “jovens matematicamente precoces”. Kirk projetava testes para adultos com QI de 200 para cima (ou seja, gênios). Madsen tinha um doutorado em política de Harvard e se especializou, nada mais, nada menos, em “marketing social e táticas de persuasão pública”.

Esse livro é o marco que assinala a reviravolta que pode ser chamada de Revolução Gay. De odiados, perseguidos, ou, na melhor das hipóteses, tolerados com dificuldade, os homossexuais passaram a comandar a agenda da discussão da sexualidade, introduziram a discussão da chamada política de gênero na sociedade americana (e, em seguida, mundial), e conseguiram se colocar, ao lado das mulheres, dos negros, e dos pobres, como uma das “quatro minorias” que estariam a requerer “políticas afirmativas” decisivas para alcançar igualdade social e política, quando não econômica, com os “homens, brancos, ricos e heterossexuais” que supostamente comandavam a vida social, política e econômica americana. (Na área artística e cultural os homossexuais já vinham se saindo bastante bem). Vista pelos olhos da sociedade americana majoritária, sugeria-se, ser, nos Estados Unidos, uma mulher, negra, pobre e gay, o cúmulo da desgraça.

O livro de Kirk & Madsen é uma das maiores e melhores evidências de que se vale David Kupelian, autor de The Marketing of Evil, livro introduzido no artigo anterior, para provar sua tese de que a inversão entre o bem e o mal de que falei no artigo anterior, não aconteceu por acaso, nem por simples processo de imitação natural de uns por outros. Segundo ele, ela é decorrente de processos conscientes e deliberados de marketing cuidadosamente planejados e executados para acabar com o que era o grande bastião da civilização cristã, o Ocidente (ou, como disse atrás, para acabar com o que era o grande bastião da civilização ocidental, o Cristianismo).

Eis o que dizem Kirk & Madsen bem no início de seu livro:

“Pode parecer cinismo afirmar isso, mas a epidemia de AIDS nos oferece uma oportunidade, embora ela possa vir a ser de curta duração, de nos estabelecer como uma minoria vitimizada nos Estados Unidos, minoria essa que estaria a merecer da América proteção e cuidados especiais. . . . É verdade que essa epidemia também vem gerando histeria de massa precisamente do tipo que, no passado, na Idade Média, e antes, produziu apedrejamentos públicos e isolamento em colônias de leprosos.  . . .  O desafio é: Como maximizar a simpatia e minimizar o medo do povo americano? Como, com cartas horríveis como as que a AIDS nos deu, conseguir fazer o melhor jogo e sair triunfantes?  . . .   A campanha que esboçamos neste livro, embora complexa, depende, centralmente, de um programa desavergonhado de propaganda, baseado firmemente nos princípios há muito tempo estabelecidos na área da psicologia social e dos anúncios comerciais” [Apud Kupelian, op. cit., cap. 1: “Marketing Blitz: Selling ‘Gay Rights’ to America”; ênfases acrescentadas] .

O livro que Kirk & Madsen escreveram foi, por sua vez, produto de uma conferência chamada “Esforço de Guerra” realizada em Warrenton, VA, por cerca de 175 ativistas em papel de liderança em diversos grupos e associações de homossexuais, convocada para mapear o futuro “do movimento”. O livro, que se propunha quebrar a resistência aos homossexuais por parte da sociedade americana, mostrava como efetivamente “vender ‘direitos dos gays’ para a América”, assim “forçando a aceitação da cultura homossexual no próprio cerne da sociedade americana, silenciando a oposição, e, em última instância, convertendo o povo americano à causa gay” [Apud Kupelian, op. cit., cap. 1: “Marketing Blitz: Selling ‘Gay Rights’ to America”].

Parte do que o livro propunha que fosse feito é a criação de uma “novilíngua” nos termos daquela discutida por George Orwell em 1984. Em primeiro lugar, o movimento deveria ser sempre designado como a favor de “gay rights”  (direitos dos gays), porque a palavra “gay”, que também significa “alegre” e “feliz”, é preferível ao termo “homossexual”, que induz as pessoas a visualizar o controvertido comportamento sexual que se pretende que a sociedade americana considere aceitável e normal. Além disso, a causa dos gays deveria ser colocada, como na frase “gay rights”, sempre em termos de “direitos”, deixando evidente que direitos são negados aos homossexuais que os demais membros da sociedade desfrutam livremente.

Os autores tinham clareza de que não bastava que eles, os homossexuais, designassem sua causa como sendo de “gays rights”. Era preciso também conseguir que a mídia passasse a descrevê-la assim e que os políticos passassem a se referir a ela nesses termos quando viessem a debater qualquer questão relevante a ela. Eles sabiam muito bem, que numa guerra de relações públicas, aquele que define os termos em que o debate será conduzido já ganhou metade da luta. O movimento a favor do aborto foi bem sucedido nos EUA porque desde o início definiu que o debate não era sobre aborto (que sugere assassinar um ser humano indefeso), mas, sim, sobre o direito de escolha, isto é, o direito da mulher de fazer escolhas sobre o que se passa com seu próprio corpo.

Assim, usando a expressão “gay rights” para definir a sua causa, e persuadindo (às vezes até através de intimidação) a mídia e os políticos a fazerem o mesmo, Kirk & Madsen conseguiram definir os termos do debate e já sair na frente antes mesmo do debate ter início.

Mesmo assim, o que dizer para a América conservadora que traz consigo números que indicam que há homossexuais que já tiveram, ao longo de sua vida, mais de 500 parceiros, conforme sua própria admissão, e que se envolvem em práticas sexuais que enrubesceriam gente bem acostumada às práticas sexuais da sociedade americana? A resposta de Kirk & Madsen é: Não falem nada; simplesmente ignorem a questão se ela for proposta, apresentem uma face e uma postura inalterada, sorriam e continuem a falar sobre o que lhes interessa falar. (Algo parecido com a atitude que, nos bons tempos, o Maluf exibia quando um repórter lhe fazia uma pergunta sobre corrupção; hoje Lula e os petralhas tentam mudar os termos do debate público, tentando argumentar que também são vítimas — no caso, da direita.)

Os resultados desse “esforço de guerra” nós todos conhecemos e é desnecessário discuti-lo em detalhe. Aqui no Brasil esses resultados estão na “Cartilha Gay” do ex-Ministro Haddad do PT, nos materiais acerca de educação sexual e políticas de gênero, nas  tentativas de reescrever a literatura infantil (como As Caçadas de Pedrinho, de Monteiro Lobato), no projeto de lei sobre homofobia, no proposta de aceitação do casamento gay, a pressão para os casais e os beijos gays nas novelas e nos filmes, etc.

Antes de passar à quarta fase, é bom resumir que, na terceira, tentou-se conseguir, e em grande medida se conseguiu, que a sociedade, aceitasse “gay” como normal. Na mídia não se exibem casais de homossexuais masculinos praticando sexo com totais estranhos em banheiros públicos, mas, sim, um casal de duas velhinhas que moram juntas há 30 anos e agora puderam se casar, um casal de senhores de classe média alta que conseguiu adotar um menino e uma menina lindos, charmosos e idolatrados astros de cinema e televisão, etc. O objetivo é mostrar que a orientação sexual de uma pessoa, seja lá qual for, não a torna anormal ou desviante, um ponto fora da curva de sino, mas que gays, lésbicas, bissexuais, transexuais, etc. são “gente como a gente”, para que a perseguição e a intolerância se tornem definitivamente assuntos do passado, para que se vá além da mera tolerância, para uma solidariedade ativa, uma defesa dos “gays rights”, que envolve o combate a todo mundo que ainda persiste achar que, afinal de contas, é esquisito homem transar com homem e mulher com mulher…

Passemos à quarta fase.

D. Quarta Fase

Se, na terceira fase, o objetivo era mostrar que a orientação sexual gay não tornava ninguém anormal e desviante, na quarta fase a agenda é mostrar que ela é uma orientação sexual preferível à orientação tradicional, heterossexual.

Materiais didáticos denunciados na mídia mostram tentativas de persuadir crianças e adolescentes de que, se eles são bissexuais, suas possibilidades de arranjar parceiros de namoro ou de sexo simplesmente dobram, eles não têm por que se preocupar com gravidez, etc.

A tática, como sempre, é esconder o que é ruim e feio, fazer cara bonita e apresentar apenas aquilo que parece bonito e atraente.

Em artigos futuros discutirei outros tópicos contidos no livro de Kupelian – e, quem sabe, voltar a este tópico.

Em Salto, 28 de Dezembro de 2015, levemente revisado, ainda em Salto, em 8 de Abril de 2017.

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